quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pobre rapaz

São nas noites que as coisas acontecem. Depois de uma semana cansativa, sexta-feira. "Happy Hour". Havia ali perto um bar onde todos se encontravam. Rapaz moço, jovem, cheio de saúde. Vai de encontro ao álcool para se destruir em troca de alguns minutos de liberdade. Olha a carteira. Havia uns R$ 57,00. "Acho que dá pra tomar umas" - pensou. E continuou a caminho.

Já estava escuro. Inicio da noite. Centro de São Paulo. Uma rua deserta. E todos que conhecem a cidade sabem que são nas noites que as coisas acontecem. E vinha ali ao encontro do rapaz, um homem, quase senhor. Barba grisalha, mal feita, e uma sacola com um cobertor dentro. O pobre rapaz, aflito atravessa a rua. E o homem o acompanha. Cada vez mais perto. E mais perto...

- O senhor teria um trocado? - o senhor diz estendo as duas mãos, largando a sacola no chão.
- Desculpa... estou sem trocados... 
- Ah, tudo bem... não precisa ter medo. Eu já fui um homem que não precisava de esmolas para sobreviver.
- Desculpe mesmo, se eu tivesse lhe ajudaria... - Virou as costas para voltar a caminhar.
- Você é um bom rapaz, pude ver nos seus olhos - Interrompe o senhor.

E o rapaz, volta ao senhor e lhe diz novamente que não tem dinheiro... Porém o senhor abaixa a cabeça e diz:

- Não tem problema meu rapaz, eu só queria que você soubesse que você é um bom homem. Eu já fui assim igual a você, bem vestido, indo aproveitar a vida, um bom trabalho... hoje eu não tenho mais nada...

E uma lágrima escorre dos seus olhos. E então ele conta sua história. Um homem que tinha um trabalho, uma família, uma casa. Sempre trabalhou em um único local, até que seu chefe, que era muito seu amigo, resolve fechar a empresa por vários motivos. Ele acreditando que estaria tudo bem, se encaixaria novamente no mercado, ficou tranquilo. Mas não foi como imaginava, pela idade, nenhuma empresa o quis como funcionário. E então, foi perdendo seus valores, sua casa, sua família, seus amigos. E agora vive assim.

Então ele olha para mim, coloca sua mão sobre meu ombro e diz:

- Você é um bom rapaz, com um grande coração. Eu soube quando o vi. Ninguém quer escutar a história de um mendigo... de um ser humano largado. Não quero nenhum dinheiro, você me deu mais que isso. Me escutou e me deu sua confiança. Te considero como um amigo. Por que você sabe que o maior bem que perdi foram as pessoas que me escutavam e me apoiavam. Dinheiro não é nada quando temos isso. - E então me deu um abraço, e o rapaz emocionado, o abraçou também. 

Então como amigo, o jovem tirou sua carteira, e lhe deu os R$ 57,00 e disse:

- Fique com isso, não me fará falta. Eu gastaria muito mal esse dinheiro... acredite...

Ele chorou mais uma vez e me abraçou novamente. E disse:

- Jovem, me faça uma promessa. Quando chegar na sua casa, abrace sua mãe, seu pai, seus irmãos se você tiver, sua namorada. Por que são as pessoas que nós amamos que fazem a nossa vida, sem eles, você não tem mais nada o que fazer aqui.

O jovem refletiu, balançou a cabeça positivamente. E se despediu. 
E ainda assim o senhor lá de longe diz:

- Não se esqueça que você prometeu!!! 

E o jovem voltou para sua casa, sentou no quintal, chorou. E foi dormir... 
Pobre rapaz...



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